segunda-feira, 3 de outubro de 2022

O Primeiro Amor de Olga Romanov, na idade adulta.



Olga apaixonou-se pela primeira vez em 1913 pelo Oficial Pavel Voronov. Antes dele teve alguns flertes inocentes com Oficiais, mas nada que dominasse seu coração como aconteceu com Pavel.

Um oficial subalterno do Iate Imperial, mas tal relacionamento teria sido impossível devido à diferença de posição entre eles. Voronov, portanto, ficou noivo algum tempo depois de uma mulher "de sua categoria". “É triste, angustiante. " 

Fonte: AS IRMÃS ROMANOV, de Helen Rappaport:

O recém-promovido tenente Pável Alekséevitch Vóronov tinha 27 anos e se juntara ao Shtandart em abril. No instante em que pisou a bordo, a 10 de junho, Olga de imediato criou uma ligação com ele. Às vezes, ficava sentada em sua companhia na casa de navegação, na proa, onde ele estava de serviço, ou aparecia para lhe ditar o diário de bordo.
 Em pouco tempo tinham seu cantinho favorito, entre a sala do telégrafo e uma das chaminés, onde muitas vezes ficavam sentados conversando com Tatiana e o favorito dela, Nikolai Rodiónov.
 Durante o dia, Pável às vezes se juntava às meninas e ao pai delas em terra firme, para disputar acaloradas e vigorosas partidas de tênis (ele era o parceiro de jogo favorito de Nicolau), sair para caminhadas ou nadar. De volta a bordo, assistiam a filmes e jogavam baralho. Tudo parecia muito inocente e correto, mas sob a superfície as emoções de Olga estavam em turbilhão.
 Todos gostavam do afável Pável Vóronov, principalmente Alexei, que Vóronov muitas vezes carregava quando ele não se sentia bem.
 No fim de junho, Olga escrevia que “ele é tão afetuoso” e aproveitava ao máximo todos os pequenos momentos de intimidade que conseguia, com frequência apenas sentando para olhá-lo quando ele estava trabalhando na ponte de comando. 
 Qualquer atividade da qual Pável estivesse ausente ou excluído era “chata”; quando ele estava presente, “era agradável e loucamente gostoso ficar com ele”. Em 6 de julho, seus sentimentos haviam se tornado mais profundos:
 “Ditei o diário de bordo para ele. Depois disso, sentamos no sofá até as cinco. Eu o amo, muito, demais”.  No dia 12 de julho, em seu último dia no Shtandart antes de voltarem a Peterhof, ela se sentou com Pável na casa de navegação até o último minuto.
 “Foi triste demais. O tempo todo em que a prancha de desembarque era preparada eu fiquei com ele. Desci do iate às quatro. Foi tão terrivelmente difícil me despedir do adorado Shtandart, dos oficiais e do meu querido [...]. Que Deus o proteja.” 
 Nas semanas que passou em Peterhof ela recebeu telefonemas ocasionais de Pável e também do leal Nikolai Sáblin, a quem tinha na mais alta estima. Isso ajudou a moderar a triste litania das indisposições quase diárias de sua mãe.

 O coração da mamãe doía, seu rosto doía, suas pernas doíam; estava cansada; estava com uma terrível dor de cabeça. Alexei também não se sentia bem, sentia dores “por acenar demais com os braços quando estava brincando”, de tal maneira que em meados de julho Grigóri foi chamado para vê-lo. 

Ele chegou às sete certa noite, sentou com Alexandra e Alexei e depois conversou um pouco com Nicolau e as meninas, antes de sair. “Logo depois que partiu”, anotou Nicolau em seu diário, “a dor no braço de Alexei começou a diminuir, ele se acalmou e pegou no sono”. 

 Olga muitas vezes se sentava com o irmão e a mãe quando não estavam bem, oferecendo conforto — assim como Tatiana — entre o ocasional passeio a cavalo ou jogo de tênis. 
Sua antiga paixão adolescente, AKCH, reaparecia na Escolta de vez em quando e ela ficava feliz em vê-lo, mas seus pensamentos continuavam principalmente com o Shtandart, que agora singrava o Mediterrâneo. 
No início de agosto, as duas irmãs mais velhas começaram a se preparar a sério para sua primeira aparição oficial em manobras do exército, que teriam lugar no dia 5 em Krásnoe Seló.
 Elas praticaram equitação por vários dias, aguardando o momento auspicioso em que passariam seus regimentos em revista, uniformizadas e a cavalo, pela primeira vez — Olga trajada em azul e vermelho com galões dourados do 3º Hussardos de Elizavetgrad, montando seu cavalo Regent, e Tatiana no azul-marinho e azul do 8º Ulanos de Voznessensk, montada em Robino.

 Eram agora as mais jovens coronelas do mundo — e no dia puderam demonstrar toda sua habilidade. “As duas grã-duquesas conduziram uma manobra a galope diante do imperador”, escoltadas pelo grão-duque Nikolai, comandante em chefe do Exército. 

 “Fazia calor e elas estavam muito nervosas, mas foram encantadoras e deram seu melhor. Creio que o imperador ficou muito orgulhoso assistindo à apresentação das filhas pela primeira e — infelizmente! — última vez numa formação militar”, recordou o príncipe Gavríil Konstantínovitch.

 Mas esse era mais um marco em suas vidas que a mãe delas estava doente demais para testemunhar, fechada em seu quarto, sofrendo de mais um acesso de nevralgia. Dois dias depois, a família foi para Livádia no calor de quarenta graus do auge do verão. Alexei continuava mal e resmungava sobre os tratamentos com banho de lama a que tinha de se submeter duas vezes por semana, que odiava. Mas ele agora tinha seu tutor oficial. Nicolau e Alexandra originalmente haviam considerado indicar alguém de sua comitiva militar ou naval, mas no fim decidiram oferecer o posto a Pierre Gilliard. 

Nem todo mundo aprovou; Gilliard era um pedagogo impecável, muito correto e escrupuloso, mas bem pouco russo, conforme observou Nikolai Vassílievitch Sáblin. 

 Alguns disseram que indicar um suíço republicano para cuidar de um tsarévitch era inapropriado. Gilliard aceitou a incumbência com apreensão considerável, pelo que ela representava, tendo sido recém-informado em particular pelo dr. Derevenko de que Alexei sofria de hemofilia. “Será que algum dia me acostumarei à terrível responsabilidade que estou assumindo?”, perguntou a seu irmão Frederick numa carta para casa. 

 Achou Alexei muito indisciplinado; em sua opinião, o comportamento nervoso e irrequieto do menino era exacerbado pela constante supervisão de Derevenko.
 No fim de novembro, Alexei sofreu outro acidente, caindo de uma cadeira em que subira na sala de aula e batendo a perna.
 O inchaço decorrente se espalhou rápido entre o joelho e o tornozelo. Outro marujo do Shtandart, Kleménti Nagórni, fora incumbido recentemente de dividir com Derevenko a tarefa de cuidar de Alexei, e se revelou “de uma bondade tocante”, ficando com o menino até tarde da noite durante a mais nova crise, enquanto suas irmãs abriam a porta a intervalos regulares e entravam na ponta dos pés para beijá-lo. 
 Mais uma vez, as preces de Grigóri, que estava em Ialta na época, pareciam ser a única coisa que o salvaria; mas, com a mesma alarmante regularidade, como depois de qualquer ferimento, o frágil tsarévitch precisou de meses de convalescença.
 Em 9 de agosto, quando subiu a bordo do Shtandart em Sebastopol para a viagem até Livádia e viu Pável Vóronov outra vez, Olga começou a se referir a ele em seu diário como “S”. Era uma abreviatura para as palavras russas sokrovishche (tesouro), solntse (luz do sol) e schaste (felicidade), que eram os apelidos usados com frequência por ela para as pessoas de quem mais gostava. Seu mundo inteiro pelo resto desse ano girou em torno de Pável Vóronov. Dia após dia ela falava dele: “é tão chato sem S, horrível”; “é vazio sem ele”; “não vi S e foi terrível”.  Pável era a perfeição: doce, bondoso, gentil, precioso. O tempo todo, por mais brevemente que fosse, ela sempre ficava “muito feliz, incrivelmente feliz” em vê-lo. 

De fato, Olga ficava desolada quando um único dia transcorria sem que passasse algum tempo com o objeto de sua afeição e, como adolescente apaixonada que era, agarrava a menor oportunidade de vê-lo ou falar com ele. Essa experiência foi além do costumeiro flerte e paquera leves em que ela e Tatiana vinham incorrendo nos últimos anos com os oficiais da comitiva. Foi seu primeiro amor e ela sofreu.

 Mas também não tinha o menor futuro. Nenhum dos bem treinados oficiais no Shtandart jamais rompeu o código de honra estrito, tácito, a que aderiam em suas relações com as filhas do tsar. Vóronov claramente sentia atração por Olga, ficava comovido com sua atenção e, sem dúvida, lisonjeado; quando a família deixou o navio e foi para o Palácio Branco, seus colegas oficiais notaram como ele muitas vezes apontava seu binóculo nessa direção, na esperança de avistar o vestido branco dela no balcão. Olga fazia o mesmo de seu ponto de observação — talvez houvessem combinado em segredo fazê-lo? 
 Fossem quais fossem os sentimentos de Pável Vóronov em seu íntimo, seu relacionamento hesitante com a filha mais velha do tsar foi de um amor mantido firmemente a distância: olhares furtivos, afetuosos e confidenciais, conversas ocasionais durante o chá no convés, partidas de tênis, colar fotos em álbuns juntos. 
Havia até a ocasional oportunidade de acompanhá-la em pequenas danças informais no convés do Shtandart, como o baile feito para comemorar o aniversário de dezoito anos de Olga, durante o qual, como todos notaram, ela dançou bastante com Vóronov. 
Em dezembro de 1913, tendo passado a maior parte dos cinco meses precedentes em sua companhia, os sentimentos de Olga inevitavelmente se intensificaram e ela começou a confidenciá-los em um código especial — algo que sua mãe também fizera na juventude —, usando símbolos similares à cursiva escrita do georgiano. Pável era agora “seu amor querido”, sugerindo um grau de sentimento recíproco da parte dele, e ela estava mais feliz do que jamais estivera. 

 E então, em setembro, uma nota preocupante apareceu em seu diário. Pável estava menos em evidência. Olga passaria vários dias sem vê-lo: “É tão abominável sem meu S, horrível”; nem mesmo encontrar seu querido amigo AKCH, que estava servindo na Escolta em Livádia, a deixava animada. 
 A vida voltou à mesma rotina previsível de aulas pela manhã, fazer companhia para a mãe ou o irmão doentes, jogar tênis e sair em ocasionais caminhadas ou passeios a cavalo. Da decepção ao tédio, à irritação e finalmente à indiferença fingida, Olga Nikoláevna passou por toda a gama de sentimentos de uma adolescente apaixonada. Sua atenção se dispersou nos dias sem S e, com volubilidade típica, hormonal, voltou seus pensamentos outra vez para AKCH, usando um novo apelido para ele — Chúrik —, lembrando-se de como era “adorável” e de como ficava bonito de uniforme, usando “minha farda escura favorita”. 
 Aconteceu que durante o tempo que ficou longe Pável estivera fazendo visitas aos Kleinmikhel, amigos íntimos da família Romanov, donos de uma propriedade em Koreíz. Um dia, a condessa Kleinmikhel foi convidada ao Palácio Branco para almoçar. Ela chegou trazendo sua jovem sobrinha Olga consigo. De repente, tudo ficou claro; Pável Vóronov e Olga Kleinmikhel estavam sendo direcionados um para o outro. Quando Olga Nikoláevna o viu em um baile de caridade, pouco depois de outubro, notou desde já um distanciamento de sua parte: “Vi meu S certa vez, durante a quadrilha, nosso encontro foi um pouco estranho, um pouco triste, não sei”. 
 Pouco depois, com sangue-frio adolescente característico, anunciou: “Estou acostumada a viver sem a presença de S por perto, a essa altura”, mas como deve ter doído em 6 de novembro, em uma pequena dança no Palácio Branco, quando notou que ele “dançou o tempo todo com Kleinmikhels [sic]”. 
 Ela ficou magoada e dias depois tentou mostrar indiferença: “É bom vê-lo e não é bom ao mesmo tempo. Não lhe disse uma palavra e não quero”. 
 Sempre havia brincadeiras de esconde-esconde no palácio com Chúrik e Rodiónov, nas quais ela “se comportava ruidosamente”, e houve uma viagem para ver um filme em Ialta. Mas quando voltou para casa, encontrou o mesmo cenário deprimente:
 Alexei chorando porque sua perna doía; sua mãe cansada e deitada, com o coração no número dois.  Em dezembro, Olga começara a ficar com medo de seus sentimentos por S e de como eles ainda dominavam seus pensamentos, e desse modo foi uma coisa boa que no dia 17 a família deixasse Livádia, embora nesse ano, em particular, a partida tenha sido mergulhada em tristeza. 

“Todos ficamos com muita saudade da Crimeia”, escreveu Nicolau em seu diário. 

 Para Olga, era um “tédio sem todos os amigos, o iate e S, claro”. E então, em 21 de dezembro, ela recebeu a notícia: “Fiquei sabendo que S vai se casar com Olga Kleinmichael [sic]”. A reação de Olga foi breve mas digna: “Que o Senhor lhe conceda a felicidade, meu amado”. 49 Seria possível que Nicolau e Alexandra tivessem deliberadamente planejado o noivado de Pável Vóronov com Olga Kleinmikhel de modo a poupar Olga de novos sofrimentos, por sonhar com um envolvimento amoroso impossível? Ficou patente para todos — e devia ser o mesmo para os seus pais — que ela se apaixonara, embora ninguém saiba dos verdadeiros sentimentos de Pável por ela. 

Talvez ele tivesse percebido que sua amizade íntima com a grãduquesa começava a ultrapassar os limites do permitido e que devia desse modo recuar e sumir de cena. Nicolau e Alexandra, sem dúvida, ficaram muito felizes em dar sua calorosa aprovação ao seu noivado com Olga Kleinmikhel, mas para Olga Nikoláevna foi duro, e sua reação foi suprimir a dor que estava sentindo, mesmo em seu diário. Lidar com um coração partido era uma coisa, mas ter de continuar a ver Pável com sua noiva era outra, assim como ter de escutar suas irmãs animadamente discutindo o casamento iminente em Tsárskoe Seló. Em janeiro, tia Ella chegou a Tsárskoe Seló com a condessa Kleinmikhel, Olga e “S”; só que agora S — o amado de Olga, sua felicidade — era da outra Olga, “não meu!”, como exclamou em seu diário. “Meu coração sofre, é doloroso, não me sinto bem e dormi apenas por uma hora e meia.” 

 Nesse ano o Natal foi triste para ela. Depois de visitar a avó no Palácio Anítchkov e presentear os oficiais da Escolta, tudo voltou à velha rotina, com o clima de inverno trazendo uma véspera de ano-novo terrivelmente gelada a Tsárskoe Seló: “Às onze da noite tomei chá com papai e mamãe, e passamos o ano-novo na igreja regimental. Agradeço a Deus por tudo. Uma nevasca. Nove graus negativos”. 

 Toda a família Romanov achou a cerimônia de casamento de Pável Vóronov, em 7 de fevereiro de 1914, na igreja regimental em Tsárskoe Seló, muito comovente. Olga guardou seus sentimentos para si e não os revelou nem em seu diário: Por volta das 2h30, nós três sentamos com papai e mamãe. Fomos à igreja regimental para o casamento de P. A. Vóronov e O. K. Kleinmikhel na igreja regimental. 
Que o Senhor lhes conceda a felicidade.
 Estavam ambos nervosos. Fomos apresentados aos pais de S e duas irmãs, meninas doces. Fomos de carro para a residência dos Kleinmikhel. Havia muitas pessoas presentes à recepção. 
 Logo depois, Pável Vóronov saiu de licença para dois meses com a esposa, sendo em seguida transferido para o posto de comandante da guarda no iate imperial Aleksandriya. Olga continuaria a vê-lo de tempos em tempos em Tsárskoe Seló, e continuou a se referir a ele como “S” em seu diário, mas sua breve experiência de um amor de verdade chegara ao fim. A esposa dele recordou mais tarde que “de seus quatro anos servindo na proximidade da família imperial, Pável conservou uma memória sagrada”. Mas Pável Vóronov permaneceu a alma da discrição acerca de seu relacionamento com a grãduquesa Olga Nikoláevna; foi uma lembrança que levou consigo até o dia de sua morte

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